Fazer pouco, bem feito
Sobre o gosto de acabar as coisas, a elegância de dizer que não, e porque é que uma página com uma imagem e uma frase pode ser a mais difícil de fazer.
Hélder Gonçalves1 min de leitura
A página inicial deste site tem uma imagem, uma frase e um endereço de e-mail. Foi a que mais deu a pensar.
Acrescentar é fácil. Cada coisa a mais tem uma boa razão para existir, e é por isso que quase tudo acaba cheio. A parte difícil, aquela em que se vê o ofício, é cada vez que se diz não a uma coisa boa por amor a uma coisa inteira.
Restrição não é falta de ambição
Os objetos de que mais gosto, num caderno, num talher, num editor de texto, partilham uma qualidade: alguém decidiu o que eles não são. A restrição não os empobrece. Dá-lhes forma, e dá a quem os usa a sensação rara de que cada detalhe está lá de propósito.
Em software, essa decisão custa mais, porque nada nos obriga a tomá-la. Não há limite de peso, de espaço, de material. O único limite é o gosto de quem decide, e é por isso que o gosto é uma competência técnica.
O último dez por cento
Qualquer pessoa chega aos noventa por cento. O que separa uma coisa feita de uma coisa acabada é o resto: o estado vazio que alguém previu, a mensagem de erro escrita com cuidado, o texto que aguenta o telemóvel e o ecrã grande, a animação que sabe parar quando pedem menos movimento.
Esse trabalho quase não se vê, e é precisamente por isso que se sente. Quem usa não sabe explicar porque é que aquilo lhe parece sólido. Só confia.
Uma regra para mim
Antes de acrescentar, perguntar: isto serve a quem chega, ou serve a quem constrói? Muitas vezes serve a segunda, e é a ela, honestamente, que convém dizer que não.
Fazer pouco não é fazer menos esforço. É gastar o esforço todo no que fica.