Hélder Gonçalves

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A lição amarga, e o que fazer com ela

Setenta anos de investigação em IA cabem numa ideia desconfortável. Uma nota de leitura sobre o ensaio de Rich Sutton, e o que ele pede a quem constrói produtos.

Hélder Gonçalves2 min de leitura

Há textos que se leem em cinco minutos e se continuam a ler durante anos. The Bitter Lesson, de Rich Sutton, publicado em 2019, é um deles. A tese cabe numa frase, e é desconfortável de propósito.

A ideia

Olhando para setenta anos de investigação em inteligência artificial, Sutton conclui que os métodos gerais, os que escalam com a computação, acabam por ganhar. Ganham, no fim, aos métodos que tentam meter dentro do sistema o nosso conhecimento sobre o problema.

Os exemplos que dá são conhecidos: o xadrez, onde a pesquisa em força bruta venceu as abordagens que codificavam a intuição dos mestres; o Go; o reconhecimento de voz; a visão por computador. Em todos, o conhecimento escrito à mão ajudou no curto prazo, e acabou ultrapassado por métodos mais simples que aproveitavam mais cálculo.

Os dois métodos que, segundo ele, escalam sem limite à vista são a pesquisa e a aprendizagem.

Porque é amarga

A lição é amarga porque desfaz uma vaidade. É agradável acreditar que a nossa compreensão do problema, a nossa elegância, as nossas regras, é o que conta. Quase sempre dá resultados antes de deixar de os dar. E quem investiu anos nessa compreensão tem de aceitar que ela foi, em grande parte, um andaime.

O que fazer com ela, a construir produtos

Não leio o ensaio como um convite a deitar fora o juízo humano. Leio-o como uma pergunta para fazer antes de cada decisão de desenho:

  • Esta regra que estou a escrever à mão vai envelhecer bem? Se um modelo melhor, no próximo ano, a puder absorver, talvez seja melhor não a fixar em código.
  • O meu sistema melhora quando o motor por baixo melhora? Os produtos que ganham com cada avanço, em vez de terem de ser refeitos, são os que estão do lado certo da lição.
  • Onde é que o humano continua a fazer falta? Não no cálculo, mas no que não se escala com computação: decidir o que importa, verificar, assumir a responsabilidade.

A lição amarga não diz que a nossa parte desaparece. Diz que ela mudou de sítio, e que vale a pena descobrir para onde.

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